Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) apontam a morte de um trabalhador a cada 15 segundos no mundo por causa de acidentes ou doenças relacionadas ao trabalho. Além disso, o órgão computou em 2013 mais de 2 milhões de falecimentos nos cinco continentes cujas causas foram enfermidades adquiridas no ambiente profissional.

Uma realidade que preocupa, principalmente porque grande parte das doenças surgem por descuido dos próprios trabalhadores. "Muitos (trabalhadores) acham que (o problema) só acontece com os outros e com ele não vai acontecer”, alerta o médico do trabalho do Instituto Análises Clínicas Santos, Eduardo Lascane Oliveira.

Ele aponta as Lesões por Esforço Repetitivo (LER), perda de audição e depressão como as três principais enfermidades profissionais encontradas na Baixada Santista.

Veja mais informações abaixo:

- LER (DORT)
As Lesões por Esforços Repetitivos/Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho são provocadas por movimentos repetitivos ou por posturas inadequadas, chamadas de posturas anti-ergonômicas. "Hoje em dia ainda há muitos casos de DORT, mas antigamente a incidência era maior", afirma Oliveira.

- Surdez temporária ou definitiva
Quando o trabalhador está exposto em uma área ruídos constantes, ele começa a perder a sensibilidade auditiva e isso pode se tornar irreversível. A perda auditiva se torna definitiva de forma lenta, silenciosa e prolongada. "Aqui na região, a PAIR (Perda Auditiva Induzida por Ruído) é mais comum entre os funcionários da construção civil, que, pela experiência que tenho, lideram os casos de acidentes de trabalho", diz o médico.

- Doenças psicossociais
Problemas como depressão, ou de outra ordem emocional, muitas vezes estão associados a uma soma da insatisfação com o ambiente de trabalho e com algum outro problema pessoal que o profissional esteja enfrentando. "As doenças psiquiátricas cresceram muito. Não há um cargo específico que ocasione esse tipo de doença. Uma soma de fatores que desencadeia a depressão", garante o profissional.
 

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Lesão por esforço repetitivo (LER) está entre as principais doenças que afetam o trabalhador da Baixada

Oliveira explica que para que um problema de saúde seja considerado uma enfermidade profissional, ou seja, que tenha relação direta com o trabalho desenvolvido pela pessoa é necessário que haja um "vínculo nexo causal, ou seja, causa e efeito específico com o trabalho que a pessoa está exercendo".

Ainda de acordo com Oliveira, muitas das doenças aparecem de forma silenciosa. "A pessoa começa a sentir um pequeno incômodo, deixa pra lá, não cuida e isso vai se agravando. Até o ponto que se torna numa lesão significativa, precisando de repouso para um tratamento mais adequado. Vale lembrar que o agravamento de um problema de saúde é sinônimo de prejuízo para a empresa. É muito ruim na questão econômica". Ainda segundo o médico, apesar dos investimentos e programas de conscientização das empresas, "há funcionários que optam em correr algum tipo de risco achando que vão conseguir afastamento com algum problema simples", exemplifica.

As pessoas que sofreram alguma doença no trabalho e tiveram que ser afastadas têm o direito de receber até 40% do salário base durante o período de afastamento. Para esse benefício, deve-se comprovar a ligação que a doença tem com o trabalho através de perícia no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), e ter, no mínimo, 12 anos de contribuição previdenciária.

Coluna no foco de acidentes

E a coluna também está entre o foco de doenças de vários trabalhadores. De acordo com o neurocirurgião e chefe do setor de cirurgia da coluna vertebral do Departamento de Neurocirurgia da Unifesp, Alexandre Reis Elias, algumas funções são consideradas de maior risco de acidentes para a coluna, como aquelas executadas por motociclistas, caminhoneiros e motoristas em geral, além de carregadores e trabalhadores da área da construção civil.

“A área comumente mais afetada nos acidentes de trabalho é a cervical e a torácica, sendo a cervical mais suscetível à gravidade, devido a sua mobilidade e possibilidade de atingir o sistema nervoso e rompimento da medula. Já as lesões localizadas na região mais estável da coluna, a baixo lombar, costumam apresentar menor gravidade”, relata o médico.

Deixou o emprego

A moradora de Guarujá Andréa da Silva, de 44 anos, trabalhou como operadora de caixa em um supermercado atacadista entre os anos de 2007 e 2010. No início do segundo semestre de 2008, começou a sentir dores no braço direito devido as caixas pesadas dos produtos que precisava levantar tanto para conferência quanto para cadastro na hora da compra do cliente.

Após uma visita ao ortopedista, foi diagnosticada com tendinite. "Tomava remédio e, nos dias que a dor estava muito forte e eu não conseguia trabalhar, ia ao médico em busca de um atestado", explica.

Em 2009, o médico aconselhou Andréa a mudar de cargo, antes que o problema se agravasse e ela contraísse uma bursite, doença que causa dor nas articulações e dificulta os movimentos. Apesar do conselho, a operadora tentou continuar no emprego, mas acabou pedindo demissão em 2010. "Eu sei que tinha direito a um afastamento provisório remunerado, mas acabei deixando isso de lado por conta da burocracia", conta.

Ainda segundo a moradora de Guarujá, ela não teve apoio da empresa onde trabalhava. "Os gerentes não ajudaram de nenhuma forma para que eu resolvesse o problema e esperavam apenas que eu me afastasse logo, assim como já havia acontecido com outras caixas do supermercado".

As dores permanecem até hoje, mas em intensidade bem menor do que na época em que trabalhava na rede atacadista. "Decidi sair do emprego antes que a bursite me impedisse de exercer o hobbie de artesã, profissão que pratico hoje em dia".